Curso gratuito de vírgula (1)

Este curso gratuito foi escrito de modo simples e direto para que você tenha um rápido domínio do uso da vírgula e também aprenda um pouco de análise sintática. Recomendo que você pratique os exercícios ao fim do curso.

Considerações iniciais

A palavra “vírgula” vem do latim “virga” (vara) + “ula” (sufixo diminutivo). Em sua origem, portanto, “vírgula” significa varinha, linha ou pequeno traço.

Ao contrário do que comumente se ensina, a vírgula não corresponde a uma pausa – muitas vezes, existe pausa, mas não há vírgula, como em “Quem tem boca vai a Roma”.

Segundo Celso Pedro Luft, “a pontuação em língua portuguesa obedece a critérios sintáticos, e não prosódicos”. Isso quer dizer que a vírgula é um recurso da escrita que serve para separar palavras, organizando-as e deixando claras as suas relações sintáticas.

A vírgula também não reproduz a respiração do falante, pois “nem a toda pausa corresponde uma vírgula, nem a toda vírgula corresponde uma pausa”, diz Celso Pedro Luft.

Lembre-se, portanto:

1. Toda vírgula não representa uma pausa.

2. A vírgula não serve para marcar a respiração.

3. Na dúvida, não use vírgula.

O lembrete número 3 evita o uso excessivo e sem conhecimento da vírgula.

O poder da vírgula

Os textos a seguir são exemplos do quanto é importante sabermos usar a vírgula corretamente.

Texto 1

Um oficial foi condenado e seu pedido de perdão teve esta sentença do rei:

Perdoar impossível, mandar para a forca!

A rainha, sensibilizada com a história do rapaz, salvou-o mudando a vírgula de lugar:

Perdoar, impossível mandar para a forca!

Texto 2

Na Antiguidade, um imperador estava indignado com a população de uma província por motivos políticos. O governador, então, passou-lhe um telegrama:

Devo fazer fogo ou poupar a cidade?

A resposta do monarca foi:

Fogo, não poupe a cidade!

No entanto, o telegrafista, por questões humanitárias, trocou a posição da vírgula e a resposta ficou assim:

Fogo não, poupe a cidade!

Regra básica para dominar o uso da vírgula

Para dominar o uso da vírgula, é essencial que você tenha pelo menos uma noção de análise sintática. Este não é um assunto tão simples, mas eu o apresentarei do modo mais prático possível para que você aprenda com facilidade.

Primeiro você precisa entender que a frase pode apresentar quatro elementos:

1. sujeito;

2. verbo;

3. complemento(s) ou predicativo para verbos de ligação;

4. circunstância(s) – de lugar, de tempo, de modo, entre outras.

A ordem natural da frase, portanto, é esta:

SUJEITO + VERBO + COMPLEMENTO(S) + CIRCUNSTÂNCIA(S)

SUJEITO + VERBO DE LIGAÇÃO + PREDICATIVO

Essa é também chamada ordem direta, cujo domínio será muitíssimo importante para você usar bem a vírgula. Lembro que esses quatro elementos – sujeito, verbo, complemento(s), circunstância(s) – podem não aparecer ao mesmo tempo na frase.

EXEMPLOS PRÁTICOS 1

Manuel comprou uma casa no campo no ano passado.

Manuel = sujeito

Comprou = verbo

Uma casa = complementos do verbo

No campo no ano passado = circunstâncias de lugar e tempo 

Daniel enviou rosas à sua amada no mês de novembro.

Daniel = sujeito

Enviou = verbo

Rosas à sua amada = complementos do verbo

No mês de novembro = circunstância de tempo

Nossa casa se localiza em um bairro agradável.

Nossa casa = sujeito

Se localiza = verbo pronominal

Em um bairro agradável = circunstância de lugar

Mariana gosta de viajar no verão.

Mariana = sujeito

Gosta = verbo

De viajar = complemento do verbo

No verão = circunstância de tempo

O comércio do Valparaíso abre aos domingos.

O comércio do Valparaíso = sujeito

Abre = verbo

Aos domingos = circunstância de tempo

O comércio do Valparaíso é bem variado.

O comércio do Valparaíso = sujeito

É = verbo de ligação

Bem variado = predicativo do sujeito

Aquele humilde cão abandonado na estrada foi adotado por uma família muito amorosa.

Aquele humilde cão abandonado na estrada = sujeito

Foi adotado = locução verbal, verbo SER na voz passava

Por uma família muito amorosa = agente da passiva

Perceba que até um sujeito extenso, como “Aquele humilde cão abandonado na estrada”, não leva vírgula simplesmente porque não há necessidade. Do mesmo modo, em todas as frases dos exemplos práticos 1 não há vírgula porque elas seguem a ordem direta.

No entanto, se na ordem direta vier um elemento “encaixado” ou fora da ordem direta, podemos ou não usar vírgulas, dependendo da função sintática do elemento e do ritmo da frase.

EXEMPLOS PRÁTICOS 2

Com vírgulas:

No próximo ano, Mariana comprará uma casa na praia.

Mariana, no próximo ano, comprará uma casa na praia.

Mariana comprará, no próximo ano, uma casa na praia.

Sem vírgulas:

No próximo ano Mariana comprará uma casa na praia.

Mariana no próximo ano comprará uma casa na praia.

Mariana comprará no próximo ano uma casa na praia.

Nesses exemplos, perceba que a mudança da ordem direta foi feita pelo deslocamento da circunstância de tempo.

Dica número 1: O advérbio e os elementos com função adverbial (que marcam circunstância de tempo, lugar, modo, etc.) podem circular livremente dentro da frase.

Veja outro exemplo de “encaixe” na ordem direta:

O gerente do meu banco, Pablo da Silva, me enviou uma ótima proposta de investimento.

Nesse caso, o uso das vírgulas se torna obrigatório porque existe a introdução, entre o sujeito e o verbo, de um aposto explicativo do sujeito “O gerente do meu banco”. Note que a frase não perderia o sentido caso esse elemento fosse suprimido:

O gerente do meu banco me enviou uma ótima proposta de investimento.

É para saber usar a vírgula nesses casos que você precisará ter noção de análise sintática. Dessa forma, deixará de usar a vírgula no modo automático, no “chute”. Para isso, procurei facilitar ao máximo as explicações, de modo que você aprenda efetivamente a usar a vírgula, iniciando pelo não uso da vírgula antes de passar para os usos obrigatório e facultativo. Espero que goste da viagem.

Acesse aqui a continuação deste curso.

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Publicado por Sol Antônia

Sol escritora de romances, língua portuguesa e livros de autoajuda.

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